Maturidade em IA, nível 1: Uso
O que dá para fazer com IA no dia a dia do escritório quando você está começando, quais são os limites e como chegar ao nível da Interação.
14/10/2026 · Cláudio Augusto, Rommel Carneiro

Este é o primeiro artigo de uma série de quatro sobre maturidade no uso de IA. A série parte do artigo Maturidade no uso de IA, de Rommel Carneiro, que descreve seis níveis de evolução: Uso, Interação, Contexto, Harness, Orquestração e Arquitetura agêntica.
Aqui eu aprofundo os quatro primeiros. Em cada um, a ideia é responder duas perguntas práticas:
- O que dá para fazer com IA neste nível?
- Se eu estou aqui, como chego ao próximo?
Série Maturidade em IA

Conceitos principais, prática e o que você conquista neste nível.
Você está no nível 1 se...
- Usa IA de vez em quando, geralmente quando lembra que ela existe.
- Faz perguntas curtas, parecidas com uma busca no Google.
- Às vezes acha a resposta boa, às vezes acha genérica, e não sabe bem por quê.
- Ainda não sabe em que tipo de tarefa a IA ajuda e em qual ela atrapalha.
Não tem nada de errado nisso. Todo mundo passa por aqui. O objetivo deste nível não é dominar a ferramenta. É criar familiaridade e descobrir onde ela já resolve algo no seu trabalho.
O que dá para fazer com IA já no nível 1
A forma mais fácil de começar é escolher tarefas que você já faz, que tomam tempo e que você consegue avaliar rápido. Se você sabe dizer se o resultado está bom, é uma boa tarefa para delegar.
Abaixo estão exemplos comuns de escritório. Os pedidos são propositalmente simples. Melhorar esses pedidos é assunto do nível 2.
Escrever e reescrever
É onde quase todo mundo começa, e por um bom motivo. E-mails, comunicados, avisos e respostas a clientes têm estrutura previsível.
"Reescreva este e-mail para ficar mais educado e mais curto. Mantenha a informação de que o prazo mudou para dia 20."
"Transforme estas anotações soltas em um comunicado para a equipe sobre a mudança no horário do almoço."
Também funciona bem para ajustar tom: deixar um texto mais formal para a diretoria, mais simples para um cliente, ou traduzir uma mensagem para inglês ou espanhol.
Ler e resumir
Documentos longos são um bom caso de uso. Você anexa o arquivo e pede o que precisa.
"Resuma este relatório em 10 tópicos. No final, liste os prazos e valores que aparecem no texto."
"Este contrato tem alguma cláusula de multa por cancelamento? Em que página?"
Aqui vale uma regra: peça para a IA apontar onde está a informação. Assim você confere no documento original em segundos.
Planilhas
Muita gente perde tempo com fórmulas que não lembra como montar. A IA explica bem.
"Tenho uma planilha com vendas por vendedor na coluna A e valores na coluna C. Qual fórmula soma as vendas só do vendedor Carlos no mês de março, que está na coluna B?"
"Explique o que esta fórmula faz, passo a passo: =SEERRO(PROCV(A2;Clientes!A:D;4;0);"Não encontrado")"
Você também pode pedir ajuda para entender uma tabela dinâmica, montar um gráfico ou limpar dados bagunçados.
Reuniões
"Monte uma pauta de 30 minutos para a reunião de alinhamento com o fornecedor de transporte. Os temas são atrasos na entrega, reajuste de preço e renovação do contrato."
"Aqui está a transcrição da reunião. Liste as decisões tomadas e as tarefas, com o nome de quem ficou responsável."
Se a sua empresa usa Teams ou Google Meet, é provável que transcrição e resumo automático já estejam disponíveis dentro da própria ferramenta.
Entender um assunto novo
"Explique o que é EBITDA para alguém que trabalha no RH e vai participar de uma reunião de resultados amanhã. Use um exemplo com números simples."
A IA é uma boa professora particular para conceitos. Ela é menos confiável para fatos recentes, números exatos e nomes. Falo disso mais abaixo.
Organizar o próprio trabalho
"Tenho estas 12 tarefas para esta semana. Me ajude a separar o que é urgente, o que é importante e o que pode esperar."
Parece pouco, mas organizar a semana com ajuda costuma economizar mais tempo do que muita automação sofisticada.
Use a IA onde você já trabalha
Ferramentas generalistas como ChatGPT, Gemini, Claude e Microsoft Copilot são boas portas de entrada.
Mas, se o seu dia acontece no Outlook, no Excel e no Teams, ou no Gmail, no Docs e no Drive, vale testar a IA dentro dessas aplicações. O Copilot funciona dentro do Microsoft 365 e o Gemini dentro do Google Workspace. A vantagem é que a IA já está onde o trabalho acontece e você não precisa ficar copiando e colando entre janelas.
Antes de usar no trabalho, confira uma coisa: qual ferramenta a sua empresa liberou. Muitas empresas têm contrato com uma plataforma específica, com regras de privacidade diferentes das contas pessoais.
Os limites que você precisa conhecer
Conhecer os limites faz parte deste nível tanto quanto conhecer as capacidades. Cinco pontos principais:
- A IA pode inventar. Ela produz texto plausível, e às vezes texto plausível está errado. Isso acontece com mais frequência em números, datas, nomes, leis e referências bibliográficas. Sempre que a informação importa, confira.
- Conta de cabeça não é o forte dela. Em cálculos, peça para mostrar a conta ou use uma ferramenta que execute o cálculo de fato. Vamos ver isso no nível 4.
- O conhecimento tem data. Os modelos são treinados até certo ponto no tempo. Para assuntos recentes, use uma ferramenta com busca na web e peça as fontes.
- Cuidado com o que você cola. Dados de clientes, salários, contratos e informações estratégicas não devem ir para uma conta pessoal. Siga a política da empresa.
- A responsabilidade continua sua. Se o e-mail sair com um erro, quem enviou foi você.
Uma forma útil de pensar: trate a resposta como o rascunho de um colega rápido e esforçado, que às vezes fala com mais certeza do que deveria. Você aproveita a velocidade e faz a revisão.
Um exemplo do WebTech
No WebTech Network, projeto de extensão da PUC Minas, o letramento em IA é o ponto de partida de tudo o que fazemos, inclusive no WebTech Days. Recebemos pessoas com níveis muito diferentes de experiência, e a recomendação para quem está começando é sempre a mesma: não comece pela ferramenta mais avançada. Comece por uma tarefa real que você vai fazer amanhã.
Isso tira a pressão de "aprender IA" como se fosse uma disciplina à parte. A IA entra no trabalho que já existe.
Como sair do nível 1 e chegar ao nível 2
O sinal de que você está pronto para avançar é bem claro: você usa a IA com frequência, mas os resultados variam muito, e você reescreve boa parte do que ela entrega.
Quando isso acontece, o problema quase nunca é a ferramenta. É o pedido. E aprender a fazer pedidos melhores é exatamente o nível 2.
Um plano de duas semanas
Semana 1: criar o hábito
- Liste 10 tarefas repetitivas do seu trabalho. Coisas pequenas: responder e-mails padrão, resumir documentos, montar pautas, revisar textos.
- Delegue pelo menos uma tarefa por dia para a IA.
- Anote em uma linha o resultado: "funcionou", "funcionou com ajustes" ou "não funcionou".
Semana 2: entender por que algumas respostas foram fracas
- Pegue as três tarefas em que o resultado foi pior.
- Para cada uma, pergunte: o que eu sabia sobre essa tarefa que não contei para a IA? Para quem era o texto? Qual era o objetivo? Qual o tamanho ideal? Qual o tom?
- Refaça o pedido com essas informações e compare os resultados.
O teste do colega novo
Um exercício simples para fazer antes de enviar qualquer pedido: imagine que você vai passar essa tarefa para um colega que entrou na empresa hoje. Ele é inteligente, mas não conhece seus clientes, seu chefe, nem o histórico do assunto.
O que você precisaria explicar para ele? Isso é o que falta no seu pedido.
Checklist para avançar
Você está pronto para o nível 2 quando:
- Usa IA pelo menos algumas vezes por semana, em tarefas reais.
- Sabe citar três tarefas em que ela ajuda e uma em que ela não ajuda.
- Confere informações importantes antes de usar.
- Já percebeu que pedidos mais detalhados geram respostas melhores.
Para fechar
O nível 1 parece básico, e é. Mas ele resolve uma barreira importante: a de nunca começar. Muita gente fica esperando entender IA antes de usar IA, e o caminho é o inverso.
No próximo artigo, vamos ver o que muda quando você aprende a explicar bem o problema.
Se você quer levar essa jornada para a sua equipe ou empresa, o WebTech Network organiza workshops e palestras sobre maturidade no uso de IA. Fale com a gente.